Alfonsina Strada “O Diabo de saias”

Alfonsina Strada “O Diabo de saias”

9 de março de 2021 0 Por Flavio Menezes

ALFONSINA DESAFIOU OS HOMENS EM SUA BICICLETA

 

Alfonsina Strada entrou para a história do ciclismo mundial ao desafiar, de igual para igual, os homens em competições como o Giro D’Italia de 1924. Ela foi uma das primeiras mulheres a abrir caminho para o ciclismo feminino mundial.

 

Alfonsina Strada nasceu Alfonsa Rosa Maria Morini em 16 de março de 1891 na pequena cidade de Castelfranco Emilia, na província de Modena, conhecida hoje pela produção dos famosos vinagres balsâmicos.

Filha de Carlo Morini e Virginia Marchesini, camponeses analfabetos, foi a segunda de um total de dez filhos do casal e ajudou a mãe a cuidar dos irmãos menores. O amor pelo ciclismo surgiu quando ela tinha de 12 para 13 anos e aprendeu a pedalar numa velha bicicleta do seu pai que a trocara por uma mais nova. Às escondidas, aos domingos, quando todos iam à missa, Alfonsina competia e organizava corridas locais.

Não demorou, diante da sua dedicação, para ganhar o apelido de “diavolo in una gonella”, o diabo de saias numa tradução literal. Preocupada, sobretudo com o falatório em torno da filha, que começou a se destacar numa atividade de supremacia masculina, sua mãe, diante das pressões do pai e dos parentes, aconselhou que se casasse e deixasse de lado a paixão pela bicicleta.

Em 1904, aos 24 anos, Alfonsina, na tentativa de conquistar a liberdade de que precisava para seguir pedalando, casou-se com o mecânico e cinzelador Luigi Strada, que a admirava justamente por se destacar nas corridas de rua da pequena Castelfranco Emilia. Tanto que, para espanto de sua família, que almejava vê-la longe dos pedais, o presente de casamento de Strada para Alfonsina foi uma bicicleta.

Alvo de crítica por treinar Alfonsina e a estimular a pedalar, o casal Strada decidiu no ano seguinte se mudar para Milão. A cidade da Lombardia, onde as mulheres já haviam conquistado o direito de competir no ciclismo, o esporte que havia conquistado os europeus no início do século 20. Luigi, então, já se convertera em treinador e incentivador da mulher e em mecânico de bicicletas.

Alfonsina, em retribuição ao apoio e por desejo próprio, participa e completa duas voltas do Giro da Lombardia em 1917 e 1918, terminando uma na vigésima nona posição e a outra na vigésima primeira, disputando corpo a corpo com os homens e chegando à frente de muitos deles. A façanha não passou desapercebida e todos, nas ruas das cidades lombardas, queriam ver a mulher que desafiava os homens e que ganhava notoriedade na mídia da época.

Alfonsina se prepara, em 1923, para o famoso Giro D’Italia

O maior feito, no entanto, estava por vir. Em 1924, o jornal La Gazetta dello Sport enfrentava dificuldades para realizar o Giro D’Italia, pois não dispunha de recursos para custear a presença de equipes de ciclistas de renome como Girardengo, Belloni e Bottecchia no evento, com o qual sempre ampliava suas receitas e conquistava novos leitores.

Emilio Colombo, diretor do jornal, decidiu, então, aceitar inscrições individuais, já que as equipes se mostravam reticentes. Alfonsina se inscreve neste circuito 100% masculino, em acerto com Colombo, como Alfonsin Strada, com a revelação apenas há dois dias do evento de que, por trás do nome masculino, estava, na verdade, uma mulher disposta, de igual por igual, a enfrentar os competidores.

De 90 ciclistas que deixaram Milão para percorrerem 3.618 quilômetros (o mesmo trajeto atual) apenas 30 completaram o circuito, Alfonsina entre eles, embora tenha sido desclassificada por não cumprir a tempo o trajeto entre as cidades de L’Aquila Perugia. Neste trecho, chuva e vento a derrubaram e ela se machucou pedalando uma bicicleta que pesava, na época, 20 quilos.

Colombo, percebendo o interesse que ela despertava em todo o trajeto, permitiu que Alfonsina seguisse em frente. Custeou, inclusive, os custos de hospedagem dela e de Luigi Strada, seu marido, treinador e fiel escudeiro.

No ano seguinte, no entanto, o jornal decidiu vetar a participação feminina no Giro D’Italia. A medida não retirou Alfonsina de cena, ao contrário, ela acabou por vencer 36 outras competições ao lado e à frente dos homens, correndo inclusive em outros países e também se apresentando em arenas de circos, que reuniam inúmeras curiosidades e diversas modalidades de esporte.

Em 1938, em Longchamps, Paris, França, Alfonsina estabeleceu o recorde feminino de 32,58 Km em 1 hora, que só seria batido em 1955 por Tamara Novikoca, da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Viúva de Luigi Strada, Alfonsina casou-se novamente em Milão em 9 de dezembro de 1950, com um ex-ciclista italiano que havia conquistado vitórias nas corridas, “o gigantesco”, como era chamado pela mídia esportiva, Carlo Messori. Alfonsina, porém, decidiu manter o sobrenome Strada, daquele que foi seu mais importante estímulo para seguir em frente.

Com Messori, Alfonsina abriu as portas em Milão de uma bicicletaria, que reunindo dois ciclistas famosos, logo se tornou um sucesso e um ponto de referência para o esporte.

Longe das corridas, mas perto das bicicletas, Alfonsina aproveitou para experimentar a motocicleta Guzzi 500 cilindradas, sucesso entre os italianos e, pilotando essa moto, seguia acompanhando as corridas de bicicleta na Itália e estimulando os agora clientes de sua bicicletaria.

Num domingo, 13 de setembro de 1959, Alfonsina foi assistir o final da Tre Valli Varesine, corrida de ciclismo de estrada que integra a agenda oficial da UCI (União Ciclista Internacional) e que foi vencida por Dino Bruni, emiliano como ela. No retorno para casa, Alfonsina parou a moto e conversou com conhecidos, ao ligá-la novamente, forçando o pedal de arranque (partida), se sentiu mal e a moto caiu sobre seu corpo. Ela teve um enfarto fulminante e veio imediatamente a óbito. Mas os seus feitos, sua coragem e determinação, a luta por conquistar espaço para as mulheres estão para sempre eternizados.

Alfonsina pedala hoje nas nuvens toda vez que uma mulher sobe numa bicicleta e desta para o pódio.

matéria da revistabike.