Em busca da serra perfeita – Por Grei de Brito

Em busca da serra perfeita – Por Grei de Brito

3 de setembro de 2019 0 Por Flavio Menezes

A vida é feita de desafios! Convites que a torna mais intensa e prazerosa. E mesmo que estes desafios aos olhos pareçam margear o impossível, o coração sempre pede um respirar profundo e após, dizer com convicção:
“-Eu posso e eu vou conseguir! ”
É isto o que nos faz sentir a vida vibrando no corpo, e o espirito, não os músculos, o fazendo se mover.
A ideia de fazer uma pedalada de longa distância já habitava na mente há tempos, então, a data se fez propicia, e mais uma vez meu companheiro de pedal, Clécio estava comigo em mais esta empreitada.
Planejamos sair de São Paulo, cruzar o Paraná e alcançar por destino final o estado de Santa Catarina. Um percurso que compreende algo em torno de 1000 Km e que pede um certo preparo do ciclista, para não ser vencido pelo desafio.
Nosso objetivo seria aproveitar o feriado de 7 de setembro deste ano de 2018, e fazer uma trip até a cidade de Lauro Muller, na Serra do Rio do Rastro.
Meu recorde em uma bike é a distância de 704 km, quando alcancei o estado de Mato Grosso do Sul partindo de São Paulo. Para Clécio, também seria uma quebra de limites, já que igualmente a mim nunca havia se deslocado tamanha distancia movido pela adrenalina que um pedal proporciona.
Rapidamente, tudo já não era mais apenas uma ideia que orbitava a mente, e passado poucos dias àquela data, já tínhamos dado um talento nas bikes, nos encontrávamos munidos de todos os equipamentos de proteção e preparados com mochilas nas costas contendo tudo o que acreditamos ser necessário para a continuidade de nossa jornada sem maiores surpresas.
Saímos entusiasmados do bairro de São Miguel, localizado na região leste do município de São Paulo em direção à rodovia Regis Bittencourt no dia 5 de setembro, uma quarta feira, antes mesmo do raiar do sol, estimando concluir nossa jornada em torno de 5 dias, percorrendo assim uma média de 200 kms por dia, e isto, mesmo com algum possível imprevisto que viesse a nos causar algum atraso.
A termos de conhecimento, a Regis Bittencourt ou BR 116 como é popularmente conhecida é a principal rodovia brasileira. É também a maior rodovia totalmente pavimentada do país. Seu início se faz na cidade de Fortaleza, no estado do Ceará e seu término, na cidade de Jaguarão, no estado do Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai.
E na medida em que ganhávamos a BR em direção ao sul, o coração pulsava mais forte e a cada placa de boas-vindas que ficava para trás, enxergávamos mais próximo o nosso destino.
Embu das Artes, Itapecerica da Serra, São Lourenço da Serra, Juquitiba, Miracatu…
Não víamos a hora de chegar em Lauro Muller, isto estava estampado em nosso rosto. Estávamos ansiosos em tirar inúmeras fotos e planejar um novo desafio para uma outra data propicia…
“Quem sabe, desta vez cortar a América de ponta a ponta em um sonho um pouco maior? ”
A medida em que ganhávamos a estrada éramos presenteados com belas paisagens. Como não mencionar a Serra do Azeite ou a Serra Do Cafezal? Também vale frisar os novos trechos da BR na Serra do Cafezal, que conferem mais segurança aos que trafega por ali.
Também tivemos por privilégio o saborear cada segundo ao lado de uma natureza riquíssima, e o fizemos com todo respeito, registrando assim na memória momentos que fogem a explicação por palavras.
E assim, descrevo a parte florida de uma história, que também nos reservou inúmeros imprevistos, além dos previstos quando programamos a viagem, e, que por conta destes imprevistos, por não nos proporcionar mais um ambiente seguro, decidimos após três dias de pedalada, que Curitiba seria o destino final de um sonho que seu foco estava cerca de 600 kms adiante dali.
Mas de tudo, tiramos uma lição, e aprendemos que uma viagem desta magnitude não deve ser apenas desejada, planejada e em seguida por uma mochila nas costas, a bike na estrada e sair pedalando feito um desbravador para uma cidade há algumas centenas de quilômetros dali. As aparências realmente enganam, e uma viagem nestas proporções deve ser muito bem planejada antes de se aventurar em cima de uma bike estrada afora, para que no final de tudo, o êxito na empreitada seja um troféu recebido no final.
No nosso caso, o pecado foi o excesso. Levamos muitas coisas que depois descobrimos ser desnecessário, servindo apenas de peso extra nos alforjes, o que nos sobrecarregou e também sobrecarregou as “magrelas”.
Foram muitas paradas ao longo do caminho! Muitos reparos e troca de câmaras de ar, acredito que por conta do peso que estávamos de posse.
No final das contas, somando junto a decisão de permanecer em Curitiba, de tudo o que levamos, não utilizamos nem 20 por cento. Também encontramos uma situação desfavorável em relação à amplitude térmica na região, que nos causou um certo desconforto. Durante o dia, o calor na estrada era grande, mas quando a noite caía, fazia um frio que assustava, e mesmo com todos os apetrechos que levamos prevendo tal situação, barraca, saco de dormir, isolante térmico e as roupas que colocávamos, tudo isto apenas amenizava a situação.
No dia que estendemos um pouco o horário pedalando e adentramos a noite, aconteceu de furar uma câmara, tentamos fazer o reparo, mas sem sucesso. A baixa temperatura influenciava de forma negativa também neste aspecto, não permitindo que a borracha da câmera ficasse totalmente seca, impedindo o contato da cola entre as partes e por consequência, que a cola unisse o remendo à câmara, fazendo com que perdêssemos um tempo precioso pela manhã até que fosse possível executar o reparo.
O maior presente e a maior lição que tiramos de tudo, foi realmente a experiência adquirida. Ainda que não chegamos ao nosso objetivo, nos aperfeiçoamos para que numa próxima viagem possamos acrescentar no relato as flores e os espinhos que existem na pedalada até a Serra Do Rio Do Rastro.
Ao final de tudo, foram 464 kms percorridos, em 3 dias de um contato com uma natureza maravilhosa! E apesar dos espinhos que correm junto a um mar de rosas, o contemplar de perto as rosas compensa o risco de nadar com os espinhos.
Serra Do Rio Do Rastro: Nos aguarde!