Kittie Knox no mês da mulher

Kittie Knox no mês da mulher

11 de março de 2021 0 Por Flavio Menezes

VOCÊ CONHECE KITTIE KNOX?

 

A história dela pode inspirar.

 

A inspiração pode levar a mudança. Ler uma história inspiradora pode quebrar preconceitos, ampliar horizontes, aumentar conhecimentos e opiniões, enfim, trazer novas visões que motivam boas ações. Por isso, para março desse ano, você vai conhecer Kittie Knox. E poderá se inspirar, se quiser.

Mulher, ciclista e mestiça. Katherine Towle Knox, ou Kittie Knox, nasceu em 7 de outubro de 1874, em Cambridgeport, Massachusetts. Quando tinha cerca de sete anos, seu pai faleceu de uma causa desconhecida. Após isso, Kittie, sua mãe e seu irmão mais velho se mudaram para Boston.

Filha de pai negro livre e mãe branca, ela se apaixonou pelo ciclismo. Economizou dinheiro com seu trabalho de costureira para comprar uma bicicleta. Só que em 1874, as mulheres não deveriam ser ciclistas. As pessoas queriam que elas ficassem em casa e costurassem. Mas Knox insistiu. Ela queria andar de bicicleta; e não em um triciclo feminino da época. Knox queria pedalar em uma bicicleta de duas rodas masculina e projetou suas próprias calças para isso, em vez das saias pesadas que as mulheres sempre usavam. Logo, usar roupas masculinas para pedalar se tornou uma marca registrada para ela. E você não faz ideia do tabu que ela quebrou fazendo isso.

Em 1894, um ano depois de Knox ingressar na Liga de Ciclistas Americanos, a organização da liga optou pela segregação. Apenas brancos podiam ser membros. Kittie Knox não quis sair. Houve protestos dos delegados para que ela fosse removida.

 

©shemadehistory.com

 

Knox era mais rápida e habilidosa que a maioria dos ciclistas homens. Ela fez andar de bicicleta parecer divertido, e isso foi incrível, porque naquele tempo o ciclismo era um esporte bem complicado, só para ricos, e cheio de regras.

Em 1895, Kittie competiu em um concurso de fantasias usando um terninho cinza, um horror para a época. E ganhou. Além disso, em julho de 1895, Kittie participou do encontro anual de ciclistas em Asbury Park. Foi relatado que ela teve sua entrada negada e não foi reconhecida como membro da Liga de Ciclistas Americanos, apesar de ser um membro portador de cartão. Sua postura ousada e corajosa causou alvoroço e chamou a atenção de diversos veículos de comunicação importantes. O New York Times noticiou: “Com a delegação de Boston está também a Srta. Kittie Knox, uma jovem bonita de cor que anda no Riverside Cycle Club, o único clube de bicicleta de cor de Boston.”

 

©BIBLIOTECAS SMITHSONIAN – LORENZ FINISON

 

O artigo continuou: “Esta tarde, Miss Knox fez alguns cortes sofisticados na frente da sede do clube e foi solicitada a desistir. Pensa-se que este episódio resultará na abertura temporária da questão da linha de cor. Alguns dos dirigentes de Asbury Park, dizem, protestarão contra permitir que Miss Knox permaneça membro da liga … [e] os ‘chutadores’ locais dizem que vão acertar as contas com o Secretário da Liga, Abade Bassett, sobre sua chegada.”

Após Asbury Park, Kittie foi escolhida como a líder da competição de verão da divisão da Liga em Massachusetts. Era uma corrida de vários dias pelo país. Kittie foi a única mulher a terminar a corrida de 160 quilômetros. Mas o sucesso que isso trouxe para ela dentro da comunidade do ciclismo não freou a discriminação. Knox teve sua participação negada em outro evento logo depois.

 

©Wikipedia

 

Mas, a essa altura, a questão racial na Liga já estava escancarada. Uma batalha se seguiu entre os membros que acreditavam que a política de associação “somente brancos” da Liga deveria ser mantida e aqueles que achavam que a segregação estava errada. Em uma edição de julho de 1895 do LAW Bulletin & Good Roads, a Liga de Ciclistas Americanos declarou que “a Srta. Katie (sic) Knox juntou-se à Liga em 21 de abril de 1893. A palavra ‘branco’ foi colocada na constituição (do LAW) em 20 de fevereiro de 1894. Essas leis não são e não podem ser retroativas. Não sabemos quem disputou as corridas e não conhecemos nenhuma lei que impeça um negro de uma corrida aberta, seja ele da Liga ou não”. Depois que essa declaração foi divulgada, a adesão de Kittie foi totalmente aceita, tornando-a a primeira afro-americana aceita pela Liga de Ciclistas Americanos. No entanto, a separação de cores permaneceria em vigor dentro da Liga até que fosse publicamente repudiada, isso só em 1999.

Kittie morreu cedo, muito cedo. Com 26 anos, de insuficiência renal. Com o seu curto tempo no ciclismo, ela causou um turbilhão de eventos por causa da sua posição em favor da igualdade. Tem quem vive bem mais e faz bem menos. Foi uma pioneira, como muitas outras mulheres ciclistas foram. Sabia que ainda havia muito a ser feito, mas seguiu em frente de qualquer jeito. Fez o que pode. Não gerou ódio reverso. Apenas continuou fazendo o que amava, e não houve homem que a fizesse deixar de amar o ciclismo. E fazendo isso, abriu o caminho para muitas, muitas outras mulheres, brancas, negras, mestiças.

Ainda há muito o que mudar, mas Kittie Knox trouxe esperança e oportunidade pra muita gente. O que ela fez mudou a forma como entendemos o ciclismo na virada do século 20. E mais importante, é inspirador. Talvez agora seja tempo de trazer inspiração, de se inspirar, de inspirar outros. Mas não aquela história de sonhar acordado ou só idealizar. É aquela inspiração que move, que te chacoalha. Falar pode ser bonito, sim. Mas talvez agora seja tempo de algo mais instantâneo, mais ativo. Faça as coisas.

(Smithsonian Library)
Matéria reproduzida da Revista Bicicleta!