O caminho do inferno é ladeado por boas intenções!

O caminho do inferno é ladeado por boas intenções!

18 de julho de 2020 1 Por Flavio Menezes

Matéria do Luiz Papillon do site Pelote.com.br

 

É difícil encontrar alguém que torça contra o sucesso de um esporte ou modalidade olímpica. Se perguntar para qualquer pessoa se ela acredita que o esporte que entrega 66 medalhas olímpicas deveria ter atenção e ser sucesso no país do futebol, bem normalmente a resposta seria sim. Então qual o porquê do ciclismo brasileiro agonizar?

Eu gosto muito de programas investigativos e vez ou outra ligava no May-Day Desastres aéreos. E salvo raras exceções o que via ali eram os investigadores descobrirem uma série de erros e coincidências que derrubavam a mais incrível máquina inventada pelo homem, o avião. Sem perder muito tempo lhe prendendo nesse lero-lero, lembro que como no filme Efeito Borboleta, tudo na vida é ligado e conectado a escolhas, erros e acertos. E é assim que vou tentar contar uma visão, um pouco aterrorizante de como o nosso ciclismo cai em parafuso.

O ciclismo brasileiro antes da globalização

Para começar essa discussão dou o primeiro salto no tempo, voltando para 1991, ano da única vitória de um brasileiro no Tour de France. Falo claro da vitória de Mauro Ribeiro pela equipe R.M.O. após uma fuga bem sucedida (Veja o vídeo abaixo).

Quero demonstrar aqui ao leitor, primeiramente os caminhos que o ciclismo brasileiro seguiu antes e depois dessa icônica vitória. A Confederação Brasileira de Ciclismo foi fundada no ano de 1979 por idealizadores em torno Bruno Caloi. Durante os anos 70 e 80 o ciclismo brasileiro investiu pesadamente na base do ciclismo, seja na estrada, na pista como também no Bmx e posteriormente no MTB.

Esse investimento levou a criação de equipes fortes não só na disputa de provas nacionais como internacionais. Antonio Carlos Silvestre venceu a Volta a Navarra em 1982, depois foi muitos anos consultor da equipe que hoje se chama Movistar. Renan Ferraro foi o primeiro brasileiro a participar do Tour de France em 1986 e Gabriel Sabbião o primeiro ciclista a ser contratado de uma equipe profissional, justamente a Reynolds (atual Movistar), sendo companheiro de um tal Miguel Indurain. Todas essas participações abriram portas na Europa para ciclistas como Mauro Ribeiro e posteriormente Wanderley Magalhães.

Caminho somou investimento privado e coordenação política

Murilo Fischer vence Trofeo Magaluf Palmanova na Espanha | Foto Arquivo Pessoal

 

Não era apenas a CBC, era principalmente o apoio de marcas como a Pirelli e Caloi na fomentação do ciclismo. Com a globalização, o aumento expressivo do custo do ciclismo profissional o caminho foi ficando mais caro. Não bastava apenas uma passagem de avião e o ciclista achava um cantinho para dormir, era preciso um investimento um pouco maior. Talvez os últimos ciclistas que chegaram na Europa na trilha do sucesso criado nos anos 90, foram Cássio Paiva (Vencedor da Volta a Portugal e Bicampeão da Volta ao Algarve) e Murilo Fischer que competiu por 12 anos como profissional.

Quando escrevo que houve investimento privado e coordenação política, parece algo muito estruturado. Calma lá, não foi nada disso. Bruno Caloi era um apaixonado pelo ciclismo de competição e isso o fez investir quando podia e quando não podia em equipes e talentos. E o ciclismo vive do mecenato no mundo inteiro, seja com xeiques árabes mantendo equipe ou com bilionários como Sylvan Adams. que contratou para o ano que vem o tetracampeão do Tour de France, Chris Froome. Mas não só de mecenas vive o ciclismo, empresas como a EF Education utilizam o esporte como propaganda mundial.

Mudança de rumo e resultados

Com a morte de Bruno Caloi em 2005, a empresa passou por diversas crises até que a família Caloi perdeu por completo o comando, vendendo a empresa para Eduardo Musa que por sua vez vendeu para a Dorel, uma multinacional canadense. Sem o investimento pesado que a Caloi fazia na base do ciclismo, poucos projetos foram duradores nesse sentido. Assim as escolhas feitas para investimento começaram ter seletividade e para isso pouco investimento na base. Posso citar iniciativas como Avaí, Memorial Santos, Ribeirão Preto, Funvic, Rio Claro e Indaiatuba como iniciativas nobres e importantes. Mas sem um comando que gerasse volume de atletas, o ciclismo de competição começou a definhar.

O investimento no atleta pronto

Vieram então os investimentos pontuais, ou seja no atleta ou equipe prontos. Assim para conseguir uma bolsa ou patrocínio o atleta precisava primeiro ganhar. Uma fase do ciclismo e do esporte olímpico em geral onde só consegue patrocínio o campeão. Ganhar passou a ser tudo ou nada e junto com isso a cultura do doping floresceu no pelote brasileiro.

Assim atualmente só os atletas mais vencedores conseguem patrocínio pessoal, bolsa atleta (o que acaba desvirtuando o estímulo) e dificulta ainda mais a evolução do ciclismo brasileiro. Esse imediatismo é uma marca não só do esporte olímpico mas da política brasileira. Nada é feito com o pensamento em 10, 20, 30 anos,  é tudo no já. E assim nosso avião vai perdendo altitude. Podemos ter um fenômeno no ciclismo brasileiro? Claro, o Victor Rangel pode ser um fenômeno, porém isolado como Gustavo Kuerten foi para o Tênis.

Para termos ciclistas brasileiros competindo e em condições de vencer provas na Europa, precisamos de centenas, milhares de jovens que busquem no ciclismo um esporte para se apaixonar.

 

A prova vai e vem, ou como desmotivar o ciclista

 

Prova de Ciclismo | Mazza Ciclismo Divulgação

 

Os organizadores passaram a sofrer cada vez mais com a dificuldade e burocracia para fechar ruas e efetivamente criar o evento. Com isso o nível das provas foi diminuindo a ponto de quase só restarem como provas federadas as “vira e volta”, provas com perfil de critério cada vez mais distantes de provas profissionais europeias.

Mesmo o entusiasta mais fiel, sabe avaliar o custo e benefício na filiação e participação em provas. Quando falo das provas “vira e volta”, é uma prova onde quem perde a roda do pelote não sobra, é eliminado na próxima volta. E assim os amadores passaram a escolher outras provas para participar. Essa somatória de fatores acaba levando o ciclismo brasileiro para a situação em que se encontra atualmente. O número de federados especialmente na estrada nunca foi tão baixo. E com menos participantes, o resultado na média é mais fraco.

Provas fracas, com menor número de participantes também significa menos mídia. E num ciclo vicioso o ciclismo brasileiro perdeu a roda. Nações não só menores mas bem mais pobres como a Colômbia e Equador conseguem resultados muito melhores.

MTB e BMX no caminho certo

 

                                                                                BMX Carapicuíba | Foto Divulgação Caracas Trails

Ao contrário do ciclismo de estrada, as modalidades de MTB e BMX encontram enorme incentivo. A facilidade em organizar provas em locais privados, onde a permissão estatal é mais fácil e o fato das equipes dessas modalidades serem mais enxutas ajuda muito na evolução das modalidades. É por isso que atletas brasileiros podem disputar a Copa do Mundo XCO e tantas provas classificatórias. Muitos participantes, provas com qualidade e abundantes, geram resultados.

Nem tudo é culpa das Federações e Confederação

Para ser bem claro, acho que as federações e confederação tem importante papel no destino, hoje cruel, do ciclismo brasileiro. Contudo como foi exposto aqui, não são os únicos responsáveis. As mudanças de legislação entorno do incentivo ao esporte, a deterioração da imagem do esporte em função do número de atletas com doping positivo fazem parte importante desse cenário. Em termos de obrigações as federações estaduais tem que organizar os campeonatos estaduais enquanto a CBC os nacionais, só. No entanto, a dificuldade de organização acaba levando essas entidades a prestar auxílio na organização de provas privadas, o que no estado de SP inclusive é lei (não se faz um evento oficial fechando via pública sem autorização da Federação).

                                                        Campeonato Brasileiro de Pista 2019 em Indaiatuba | Foto Francisco Medeiros

A CBC por sua vez organiza apenas os campeonatos nacionais e fiscaliza eventos UCI (atualmente apenas no Paraciclismo e MTB). O próprio Velódromo Olímpico no Rio de Janeiro está abandonado e bizarramente não recebe competições oficiais “a anos”, o campeonato brasileiro de Pista foi disputado em velódromo descoberto. E logo logo vamos ler a notícia que o saudoso Velódromo do Pan de 2007 virou de fato sucata.

 

Quem quer ganhar dinheiro?

De um lado as federações com o pires na mão pedindo dinheiro e reclamando das dificuldades da vida, do outro… O mercado da bicicleta no Brasil é bilionário, tendo ultrapassado a marca de 2 bilhões de reais em 2013. Eventos como o Letape Brasil e diversas provas amadoras como a Bike Series ou a grife Brasil Ride costumam ter ingressos esgotados com muita antecedência e num patamar de custo muito superior as provas “federadas”.

É quase como a funcionalidade do Tinder, para cada amor há uma sedução. E o que falta para o ciclismo é seduzir o atleta a ser um atleta federado. Como todo ciclo vicioso, as federações são parte desse ciclo, ainda que involuntariamente e penso que o único caminho para recuperar o esporte e no futuro ter resultados, é começar a mudar não só nas federações mas em diversas áreas, o que será papo para outro texto.