MAVIC EM LIQUIDAÇÃO JUDICIAL. SERIA VÍTIMA DE UM GRUPO DE INVESTIMENTOS? QUEM É SEU DONO?

MAVIC EM LIQUIDAÇÃO JUDICIAL. SERIA VÍTIMA DE UM GRUPO DE INVESTIMENTOS? QUEM É SEU DONO?

10 de maio de 2020 0 Por Flavio Menezes

Um golpe indústria francesa da bicicleta: a icônica fabricante de rodas Mavic está em processo de liquidação judicial. Um choque, pois acreditava-se que após a sua venda pela controladora Amer Sports (Salomon)  ao grupo de investimentos californiano Regent LP ela tomaria novos rumos. Não foi o que aconteceu: funcionários e sindicatos descobriram que o dono da Mavic pode ser outro e não aquele que foi apresentado e oficialmente declarado

 

A Mavic por mais de 40 anos é a fornecedora do serviço de apoio neuto ao Tour de France

O setor das bicicletas já faz algum tempo vem sendo assediada por grupos de investimentos. São fusões, negócios, aquisições em muitos casos feitas por gente ou interesses que na maioria das vezes não tem afinidade nenhuma com o setor e nem com sua dinâmica.  Para o consumidor e especialmente para o mercado tudo é feito e divulgado sustentando que a marca será levada ao mais alto patamar e que a rentabilidade crescerá a números impressionantes. Porém nem tudo funciona como nos releases distribuídos para a imprensa ou nos folders para investidores, muito provavelmente uma vítima desse tipo de ação predatória é a icônica marca francesa Mavic.

Fundada em 1889, a francesa Mavic cruzou a história da evolução da bicicleta, seus altos e baixos, mas sempre intimamente ligada ao mundo do ciclismo de estrada, onde por mais de 40 anos operou como apoio neutro do Tour de France, com um contrato ainda em vigor. Atualmente seu catálogo de produtos é formado, além das rodas para ciclismo e mountain bike por pneus, roupas, sapatilhas e capacetes.

 

                                                               Nos anos 80 a Mavic chegou a oferecer grupos completos – foto: reprodução catálogo

No passado chegou a produzir uma diversificada linha de componentes indo das caixas de direção, pedais, coroas, câmbios tendo grupos completos à disposição do consumidor.

Foi vanguardista no lançamento do câmbio eletrônico, em 1992 com o Zap – uma novidade que chegou prematuramente ao mercado, pois merecia maior tempo de testes, e para essa afirmação basta levar em conta quanto tempo levaram seus concorrentes diretos naquele momento  (Shimano e Campagnolo) para lançar seus câmbios eletrônicos;  os vários problemas técnicos do câmbio e seus comandos eletrônicos continuaram  com seu sucessor com transmissão sem fio,    o Mektronic de 1999, e chegaram a riscar a imagem da empresa.

 

                          Grupo Mavic Mektronic de 1999

Em 1994 a Mavic  foi adquirida pelo Salomon Group – uma marca também de origem francesa . Desde então, mesmo após a venda do Salomon Group para a Adidas em 1997 por 1,2 mil milhões de euros, e em 2005  revendida para o Amer Group por  485 milhões de euros,  a Mavic sempre ia no “pacote” e se manteve  até fisicamente perto da marca Salomon compartilhando a instalação de  Annecy  por cerca de 25 anos, até que em julho de 2019 a  Mavic e a Salomon se viram obrigadas a separar suas ações pois o Amer Group – dono de outras marcas esportivas – como a Enve (concorrente direta da Mavic, com base em Utah, comprada em 2016 por 50 milhões de dólares e com quem se prometeu sinergia no desenvolvimento de alguns produtos e na distribuição e atendimento ao consumidor – principalmente na América do Norte) – Wilson, Atomic, Suunto, Precor, Peak Performance e Arc’Teryx, Armada, Louisville Slugger, De Marini, Sports Tracker – resolveu se desfazer da marca francesa.

O motivo que levou a Amer a se “desfazer” da Mavic foram as quedas nas vendas em 2017 e nos primeiros meses de 2018, quando a queda das vendas – das marcas Mavic e Enve – foram da ordem de 12%, principalmente por perdas de pedidos voltados para atender o mercado de OEM – Original Equipment Manufacturer – ou seja o fornecimento para as montadoras de bicicletas foi afetado.

 

                          Nestes galpões em Annecy a Mavic dividia seu espaço com a Salomon – foto: PressAnnecy

Em maio do ano passado o Presidente e CEO da Amer Sports declarava “Como parte de nossa estratégia, continuamos focando o portfólio e as capacidades do Grupo em áreas de crescimento mais rápido, melhor lucratividade e escalabilidade. No ciclo fiscal anterior, chegamos à conclusão de que não somos o melhor proprietário da Mavic, que representou apenas aproximadamente 3% de nossas vendas e que possui motivadores de negócios distintos e pouca sinergia em relação ao grupo em geral. Acreditamos que a icônica marca Mavic tem um forte potencial, o que seria melhor percebido como parte da Regent”, já sinalizando que os finlandeses estavam repassando o negócio e dois meses depois concluiriam a sua operação, por um valor não revelado, com o fundo de private equity Regent LP com sede em Los Angeles.

Poucas semanas antes do fundo Regent LP assumir o comando da Mavic, o grupo finlandês Amer Sports foi adquirido pelo consórcio chinês liderado pelo Anta Sports Group  (dono das marcas Fila, Descente, Sprandi) por 4,6 bilhões de euros assumindo 94% das ações; até então a Anta era a terceira maior empresa de roupas esportivas do mundo em receita, isso dá uma ideia do frenesi dos negócios no mundo das grandes marcas esportivas.

 

 

Mavic e seus ‘motards’ de apoio durante a Paris Roubaix – foto:yTim De Waele/Getty Images

Para surpresa de muitos no setor, pouco menos um mês após concretizar a operação da Mavic, em agosto de 2019,  a Regent adquiriu a Accell North America que vinha de um prejuízo de 11 milhôes de euros; nessa operação estavam incluídas as marcas Diamond Back, Redline e iZip todas de propriedade da do grupo holandês Accell Group NV que detém entre outras marcas a Atala, Babboe, Batavus, Carraro Cicli, Ghost, Haibike, KOGA, Lapierre, Loekie, Nishiki, Raleigh, Sparta, Torker, Tunturi, Van Nicholas, Winora e XLC – trata-se de um grupo focado no negócio dos pedais. A operação norte americana, custou à Regent US $ 1 pelas marcas americanas com um potencial de ganhos máximos, estimados em 15 milhões de dólares, para os holandeses ficou a opção de um acordo distribuição por meio da Regent de algumas marcas europeias no mercado norte-americano.

Logo após a aquisição da Mavic pela Regent LP , havia otimismo, com com declarações do recém empossado presidente Gary Bryant: “ Com o apoio da Regent LP, aceleraremos os planos de produto e desenvolvimento. Guiados por nossa estratégia de marca e foco no serviço, qualidade e desempenho” e ainda indicou a independência da marca dentro da Regent: “É como ser uma start-up, exceto que já temos receita significativa. Uma start-up de 130 anos”, concluiu

Ainda sobre a nova operação, Bryant destacou : “Mais importante do que os serviços separados, a Regent espera que a Mavic se restabeleça como uma empresa mais ou menos independente”, disse Bryant. Isso contrasta com as controladoras anteriores da Mavic, que tentaram criar portfólios de marcas sinérgicas.

Os planos futuros, no discurso pareciam ambiciosos com uma linha de rodas renovada para 2021 e ainda com a sinalização de que no futuro, os franceses poderiam retomar a produção de componentes. “Não é certo, mas vamos explorar (oferecer componentes)”, disse ele. “Estaremos abertos a novas oportunidades”.

 

                                                     O futuro da Mavic é incerto e ainda há muita poeira no ar

 

Mas em Annecy não houve a arrancada esperada: “Em setembro de 2019, apenas dois meses após a venda, observamos uma total falta de comprometimento de seus supostos novos proprietários e acionamos um alerta econômico. Em dezembro até alertamos o presidente do Tribunal Comercial de Annecy e o Ministério Público e solicitamos que Mavic fosse colocada sob a proteção do Tribunal Comercial e que um verdadeiro proprietário fosse encontrado”, apontou em declarações à Bike Europe um membro do comitê de representantes dos funcionários da empresas.

Em fevereiro, Gary Bryant, renunciou à presidência da Mavic e Renaud le Youdec foi nomeado presidente como representante da By Saving , uma empresa de recuperação financeira. Dias antes de ser declarada em liquidação judicial, a operação de venda da empresa que emprega 250 pessoas em todo o mundo, sendo 200 em suas plantas de Annecy e Saint-Triviers-sur-Moignans veio à tona a informação de que a Amer/Salomon não tinha vendido a sua operação à Regent LP, mas ao grupo M Sports International LLC, com sede em Delaware, nos Estados Unidos e sem vínculo de capital com a Regent, um choque que provocou muita estranheza.

Tudo é muito confuso, pois a M Sports foi registrada em fevereiro de 2019, com um  registro comercial francês de fevereiro deste ano apontando que a M Sports International era representada por Michael Reinstein, que é simplesmente o presidente da Regent. E basta acessar o site da Regent para constatar que a Mavic aparece como integrante de seu portfolio onde é confirmada a aquisição em julho do ano passado.

No último dia 7 de maio, o Tribunal de Comércio de Grenoble entrou com o processo de liquidação judicial da Mavic. Segundo a agencia de notícias AFP a empresa passará por um período de observação de 6 meses.

Dois  sindicatos que representam os funcionários da Mavic questionaram, em comunicado à imprensa, sua antiga controladora Salomon, sobre a venda em julho passado ao  fundo de investimento californiano Regent LP, por um preço mantido em confidencialidade.

Por outro lado, através de declarações à imprensa francesa o grupo Amer afirma que ele também “é uma vítima” e que “Regent ocultou a verdadeira identidade do acionista que assumiu o controle” .

Há um verdadeiro jogo de empurra e ainda ninguém sabe ao certo quem é o verdadeiro dono da Mavic e quem será o responsável por funcionários e pela própria manutenção da empresa e pelas dívidas junto a fornecedores.

Para muitos franceses, e para os fãs de seus produtos,  o temor é que ela tenha o mesmo fim que outras marcas francesas que foram absorvidas por outras corporações onde perderam sua essência e identidade francesa ou simplesmente desapareceram como a Motobécane, Mafac, Gitane, Peugeot (bicicletas) Idéale, Stella, Mercier, Stronglight e acabe diminuída ou mesmo desaparecendo.

 

 

Com um olhar no mercado financeiro e outro no mundo do ciclismo de estrada, o economista com experiência em mercados internacionais Fernando Blanco destaca: “Ciclismo e fundos de investimento não combinam,  são culturas muito diferentes. Eu diria que é uma receita para o desastre”, para fazer essa análise ele vai na essência de praticamente todas as grandes empresas do setor de bicicletas fundadas por gente com grande envolvimento sentimental pelo negócio. “O mundo do ciclismo é dominado por empreendedores apaixonados, enquanto fundos são gerenciados por financistas que só tem olhos para o retorno sobre o investimento Fundos sempre investem em empresas vistas com alto potencial para crescimento, geralmente comprando ou se fundindo com competidores. Só isso já é motivo para muito stress dentro da empresa investida”, neste exemplo temos o que aconteceu com a Mavic quando esta foi adquirida pelo Amer Group que já tinha em sua carteira a concorrente Enve.

Para Blanco as tensões internas tem inicio muito antes das assinaturas de contratos e oficialização do negócio:  “Em geral, o investidor financeiro tenta impor cortes de custos e de produtos que julgam ser pouco rentáveis. Nestas horas, o empreendedor sempre acha que o investidor não entende do negócio e o investidor sempre acha que o empreendedor não entende de gestão. Quase sempre ambos estão certos

Ainda segundo Fernando, neste momento é preciso que os dois lados tentem entender seus mecanismos para que isso não reflita no desenvolvimento,  produção e comercialização dos produtos, o que pode levar à perda do mercado ou até mesmo ao fim da marca: “É um jogo de finanças, mas antes de tudo é um conflito cultural entre egos difíceis“, no caso da Mavic é ainda mais complicado pois ainda é preciso entender quem é o verdadeiro dono da empresa.